segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A gente se
queixa da deixa
que não fecha

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

bloqueei o criativo

Minha vontade era deitar na rede e escrever. Sentar no banco da praça e escrever. Em casa, a cachorra começa a latir e me desconcentra. Certamente haverá de chover na praça ou o banco gemerá da quentura. Não vale o risco. Meu bloqueio é permanente porque a gente tem medo de pensar muito. Observar é ser louco à vista de quem passa. Recorro a imagens que nunca vi, como a parte interna do meu cérebro. As palavras estão guardadas ali. Eu as vejo voando dentro de um lugar escuro. Absorvo muito do que leio, embora não me lembre de quase nada. As influências e palavras se perdem dentro de mim, e ficam longe. Agora, margeiam minhas mãos. Tento agarrá-las e se desprendem. As mais lentas estão em abundância. Odeio rotinas como se sabe. Sou inquieto, persigo as metidas afora, populares metáforas. Esboço uma aproximação e me escapam. Refaço o trajeto confiante, agora tenho o mapa: as palavras se misturam, engravidam e será preciso esperar. Não saio da cama.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Choveu desgraçadamente. Eu estava completamente encharcado e esperando pelo show do Ney Matogrosso. Os patetas contratados pela prefeitura anunciaram o adiamento - ou cancelamento, como queiram. Ficamos todos putos. As pessoas começaram a vaiar. Fui buscar o carro, que estava longe, a uns cinco quarteirões dali. Como um sanduíche no caminho, chego em casa e tomo um banho. Não quero ver filme, penso. Ensaio ler Galeano: não passo de duas ou três páginas. Avançaria pouco hoje. Peguei Bella, a cachorra, para passear comigo no carro e comprar algumas cervejas. Há um posto por perto que sempre está aberto, reduto dos bêbados da madrugada. De volta, ponho Clube da Esquina para tocar enquanto tomo umas goladas. Os vizinhos dormem, o silêncio paira e minha mente inquieta começa a produzir. Precisava de mim mesmo uma vez mais.

domingo, 3 de janeiro de 2016

intensidade

Houve uma menina
cujo abraço apertava
apertava
e durava
feito cheiro de livro novo
e um olho que ardia
ardia
como sabão no olho
Dizem por aí
que isso faz bem
muito bem
acalma a alma
Mas eu costumava
ir a um ponto
e não mais
voltar

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

malagueta

Nasceu um pé de pimenta na frente de casa. Está semicercado por pingos de ouro. Ninguém daqui de casa pôs a sementinha, por isso o mistério.Tínhamos um abacateiro no quintal, mas virara alvo constante dos cassacos e sofria desgaste pelo tempo. Meu pai desconfia que foi algum passarinho. Um sabiá, para ser mais específico, teria levado a malagueta para lá. Pode ser, uma vez que eles fazem morada na praça em frente. É curioso que um pássaro possa apreciá-las. Deve ser por isso que o sabiá canta rapidamente...

O processo de amadurecimento demora um pouco. Retiramos uma ou duas laranjas-vermelhas para consumo diário. Arde bastante, sobretudo quando damos uma dentada no caroço. Parece aquele jogo de campo minado. Basta não diluir bem e vira obrigação tomar dois goles de suco. Hoje, pensamos diferente. Sacamos umas dez para fazer um molho, porque outras duas estavam com a ponta mordida. Misturamos azeite (pode ser vinagre branco), sal e alho (pode ter cebola). O resultado sairá daqui a uma semana. Sei que sobraram apenas as verdes no pé. Pobres dos passarinhos.

domingo, 22 de novembro de 2015

prioridades

Quando não tem nada para fazer, o maceioense vai à Bienal, visita livrarias, percorre corredores para comprar discos e livros. Que serão devidamente colocados, com plástico e tudo, de forma horizontal no fundo da prateleira da sala de leitura. Onde permanecerão inertes e sujeitos passivos, jamais ativos. Quando, enfim, ganharão algumas manchas com o ciclo fatalístico de verão a verão. Findo o trabalho, o maceioense se dedica ao que tem de melhor para fazer: se esbalda no sertanejo com long necks no balde, gasta tempo na igreja ou vai ao cinema ver a nova comédia global.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Nunca ao norte

Eu vou pegar minha viola, puxa a cantora. Eu vou, eu vou, contesta a plateia. O coro não demora a preencher todo o salão do coletivo. Os tambores invadem a mansão da timidez. Há uma menina cujas mãos não querem desprender dos lados da saia. Saia longa, meio vermelha, com arte rupestre ou africana, não se sabe ao certo. A cabeça faz Leste-Oeste mais rápido que chocalho, mas nunca aponta para o norte, onde estou. É das mais bonitas que já vi dançando nesse jeito louco. Os pés agitados casam com a inquietude que me assume. Há um só problema, um problemão que atende por namorado. Não me causa espanto. .