sábado, 18 de julho de 2015

Tudo passa ligeiro

O cinto está preso
imóvel
Desde o dia do
inevitável fim

Se for pego
em uma blitz
a ocorrência se
dará por sua
ausência

Há ocasiões
por certo
em que alguém luta
e o prende com força
por breves corridas

Só viagens curtas
Nada de trajetos
Demasiadamente longos
e enfadonhos

Tudo, afinal, é
passageiro
Tudo passa
ligeiro

domingo, 28 de junho de 2015

Vai sobrar alguém?

A caminhonete branca repousa sobre a zebra pintada no asfalto. Não poderia estar ali, penso. Especialmente quando o semáforo está vermelho, concluo. Ronca baixinho para depois fazer crescer o ruído próprio dos elegantes. Todos os vidros escuros estão fechados. É noite.

Um homem tenta atravessar a faixa pela frente da lata imóvel. A Amarok acelera alguns passos. O pedestre fixa os olhos no motorista e dá meia volta. Está zangado. Abre o sinal, segue o jogo.

A branquinha engole as próprias passadas na avenida. Corre como quem sofre de diarreia súbita. O semáforo insiste no vermelho. Acelera mais um pouquinho, vai dar. Passa incólume.


Atrás, em letras garrafais, anuncia: “Fora CorruPTos”. 

Então, nesses casos, pergunto: vai sobrar alguém?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

qualificado

O menino
pegava nas vitrines
apenas sonhos

domingo, 14 de junho de 2015

Haicai

Diz sim e sorri
Com a cabeça
Sobre meu peito

terça-feira, 9 de junho de 2015

Esses

Sei sobre seu singelo sorriso
Será saudade, será solidão?
Suponho ser são

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Aquilo que Eu não sei nomear

Saudade: s.f. Sentir n'alma
Aplicação: Quando eu deslizava o indicador esquerdo nas tuas costas

domingo, 10 de maio de 2015

Dia de quem trabalha a dor

Sexta, primeiro de maio, dia aberto, sem pancadas de chuva. O sol marca posição sobre os prédios. É um dia para se divertir, dizem especialistas - e chefes de família. Acorda a criança, vamos à praia. Café da manhã ok, roupa ok, e toalha de banho idem. Destino: praia de veraneio.

O carro, apressado, engole passos sobre a pista. O som está sintonizado na rádio mais erudita possível. Talvez tenha tocado Djavan, Tribalistas ou músicos da cena local. Todos chegam em vinte minutos, estourando vinte e cinco. Para a felicidade doce, ingênua e correta da menina, que adora subir castelos na areia e tomar uns caldos.

- Abre a mala porque tem muita coisa. Lúcia, os brinquedos estão lá, vamos pegá-los – diz a senhora.

Família bem acomodada, mesa à frente do mar. Prontos para o pedido. O sinal com as mãos chama o garçom. Tudo normal, não tivesse o atendente um metro e meio. Um metro e meio e um rosto liso, sem as menores intempéries provocadas pelo correr dos dias e noites. Sem qualquer sinal de barba ou bigode, voz aguda.

Cara de quem, obviamente, não brinca em serviço em seu dia de trabalhar a dor.