segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Fenômenos

Os escritores são pessoas pouco normais que precisam textear com metáforas para que haja algum sentido. Eles dizem que


O sol nasceu feito
maracujá gigante
espremendo
tranquilidade
E que a sua
saída no sertão
corrói o céu
E que a lua é
a única
rolha
capaz de nos
embriagar

domingo, 30 de agosto de 2015

Devaneios regulares

- Não há felicidade sem dor. Apaixonar-se por poeta é como nadar no São Francisco. Tragar cigarro não preenche buracos de solidão. Ouvi tudo isso no rádio. Intrigante, não?

- Tudo bonitinho para clichê. Mas felicidade não existe, só momentos felizes. Essa lição pode ser aprendida logo no início da vida com Odair José.

- É como buscar estrelas em cidade grande. Sempre vai ter uma lua onde se conformar.

Luana estava no chuveiro há poucos minutos. O sabonete se espatifara em pedacinhos e um deles calhou de grudar no box. Pressionara-o entre o polegar e o indicador. Só então percebeu que o vidro desembaraçava. Escorregou as mãos sobre os peitos para espalhar a água enquanto deixava os ombros encharcarem. O espelho aconselhava mudanças.

- Sabe aquela história de exercícios para aumentar o nível de confiança e autoestima?

- Por onde vai começar dessa vez?

- Caminhadas regulares.

- Está bem.

- O desdém segue sendo seu mantra.

- Você não consegue viver sem a bebida, o cigarro e mim. São as três principais drogas. É nisso que acredito.

- Já superei piores.

- Vá em frente. Se tiver sucesso nas duas primeiras empreitadas, espero que não alcance a terceira.

Juliano desgrudou os pés do chão para alcançar a mesa, onde largou a revista semanal. Alcançou palitos de dente e o controle da TV.

- “Polícia prende homem suspeito de assassinato da filha de empresários do ramo imobiliário”

- Tome esta família como exemplo. Os pais trabalharam duro para construir algo e resolveram ter filhos. Eles nascem, recebem brinquedos, fazem festas de aniversário e atravessam continentes. Um dia, tudo isso acaba a facadas.

- Dez minutos que vão ecoar por toda uma vida.

- Exato. Parece haver sempre alguma compensação na vida.

- Como um troco por aquilo que você fez a alguém?

- Pode ser. Até mesmo mais que isso. É preciso andar com o ceticismo lado a lado. Não pode estar à frente para não te deixar parado em uma cama ou atrás para não te pegar desprevenido.  

- Quando você vai voltar a escrever? Essas conversas sempre rendem bons contrapontos.

- Breve. Sou um escritor pessimista, mas as pessoas também procuram temas assim por alguma razão. Não só de autoajuda sobrevivem as livrarias, embora esses livros ocupem as estantes onde você mete o olho imediatamente assim que entra em uma delas.

- Deve rolar uma identificação por parte daquelas que frequentam bares mais alternativos e submergem nos temas.

- As pessoas que mais duvidam esgotam os sofás dos psicólogos.

- E as mais distraídas são as mais felizes.

domingo, 23 de agosto de 2015

A margem

eles pensam que
me forçando:
- útil, vá
fazer algo útil
eu vou ficar
à margem da vida
como eles, que
sentam
fecham-se e
se calam

se me encanta
mergulhar,
tocar o fundo
com a mão
e voltar a ficar
submerso,
flutuar e
emergir,
não é de
estranhar que
eu deteste
apenas terra
firme

é preciso ingerir
o líquido salgado
para distingui-lo do
normal
afogar-se em
meio a
correntezas
da areia, eles
apenas enxergam:
“Praia perigosa”

sem ousar ou
pôr tudo a perder
a vida fica
gasosa

Teu nome me
persegue até nas
fichas da academia

sábado, 18 de julho de 2015

Tudo passa ligeiro

O cinto está preso
imóvel
Desde o dia do
inevitável fim

Se for pego
em uma blitz
a ocorrência se
dará por sua
ausência

Há ocasiões
por certo
em que alguém luta
e o prende com força
por breves corridas

Só viagens curtas
Nada de trajetos
Demasiadamente longos
e enfadonhos

Tudo, afinal, é
passageiro
Tudo passa
ligeiro

domingo, 28 de junho de 2015

Vai sobrar alguém?

A caminhonete branca repousa sobre a zebra pintada no asfalto. Não poderia estar ali, penso. Especialmente quando o semáforo está vermelho, concluo. Ronca baixinho para depois fazer crescer o ruído próprio dos elegantes. Todos os vidros escuros estão fechados. É noite.

Um homem tenta atravessar a faixa pela frente da lata imóvel. A Amarok acelera alguns passos. O pedestre fixa os olhos no motorista e dá meia volta. Está zangado. Abre o sinal, segue o jogo.

A branquinha engole as próprias passadas na avenida. Corre como quem sofre de diarreia súbita. O semáforo insiste no vermelho. Acelera mais um pouquinho, vai dar. Passa incólume.


Atrás, em letras garrafais, anuncia: “Fora CorruPTos”. 

Então, nesses casos, pergunto: vai sobrar alguém?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

qualificado

O menino
pegava nas vitrines
apenas sonhos