terça-feira, 9 de junho de 2015

Esses

Sei sobre seu singelo sorriso
Será saudade, será solidão?
Suponho ser são

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Aquilo que Eu não sei nomear

Saudade: s.f. Sentir n'alma
Aplicação: Quando eu deslizava o indicador esquerdo nas tuas costas

domingo, 10 de maio de 2015

Dia de quem trabalha a dor

Sexta, primeiro de maio, dia aberto, sem pancadas de chuva. O sol marca posição sobre os prédios. É um dia para se divertir, dizem especialistas - e chefes de família. Acorda a criança, vamos à praia. Café da manhã ok, roupa ok, e toalha de banho idem. Destino: praia de veraneio.

O carro, apressado, engole passos sobre a pista. O som está sintonizado na rádio mais erudita possível. Talvez tenha tocado Djavan, Tribalistas ou músicos da cena local. Todos chegam em vinte minutos, estourando vinte e cinco. Para a felicidade doce, ingênua e correta da menina, que adora subir castelos na areia e tomar uns caldos.

- Abre a mala porque tem muita coisa. Lúcia, os brinquedos estão lá, vamos pegá-los – diz a senhora.

Família bem acomodada, mesa à frente do mar. Prontos para o pedido. O sinal com as mãos chama o garçom. Tudo normal, não tivesse o atendente um metro e meio. Um metro e meio e um rosto liso, sem as menores intempéries provocadas pelo correr dos dias e noites. Sem qualquer sinal de barba ou bigode, voz aguda.

Cara de quem, obviamente, não brinca em serviço em seu dia de trabalhar a dor. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cabelo

O cabelo ao chão sempre parece pior que o da cabeça. Não passa de um amontoado, um tufo. Não que o meu seja bom. Não é. E é ruim em qualquer situação, mas ainda dá para cuidar um pouco. Leva mais ou menos um mês para crescer e começar a me incomodar, aí você vai ao cara que corta e tudo pode estar pronto em uns 10 minutos. É injusto. Bem que poderiam crescer no mesmo ritmo que o pelo da cara.

Ultimamente, tenho ido quinzenalmente ao Marcos, o rapaz encarregado de me inserir socialmente outra vez. E de recuperar a autoestima também. Acho que ele tem entendido um pouco errado aquilo que quero e deixado um pouco maior do que deveria. Eu estava pronto para escrever “mais grande” em vez de maior, é um pouco do vício do espanhol, ao qual estava habituado a falar há algum tempo. Aliás, já perceberam como os cortes da moda sempre atendem ao desejo de uma minoria? A maioria não se encaixará nesses padrões. Nunca.

Há influências muito claras neste texto de um escritor ordinário americano, perceberão os mais curiosos. A diferença é que não costumo pincelar os meus com merda, porra e muitos outros palavrões. Voltando ao que interessa, garanto: tomar banho quando o cabelo está baixo, muito baixo, está entre as melhores sensações que alguém pode experimentar. É boa, aquela corrente de água gelada. Mas há algum tempo não sei bem o que é isso.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Muelle

Ele a puxou usando apenas os olhos. Não precisava de mais nada, como agarrar os braços contra a vontade dela. Sabia que se entendiam bem, dispensando até mesmo palavras. Ela virá e não tomará esse gesto como uma ofensa, pensou. De fato, Cora não deu as costas. Estavam ali, na rua Paseo de San Gabriel, caminhando vagarosamente pelo calçadão, cerca do Rio de La Plata. Ficou feliz por ela ter ficado elo menos para uma conversa.

- O que você quer?

- O que você diria?

- Sobre o quê?

- Sobre estarmos aqui, em Colônia do Sacramento. Eu me perguntava: quando vou trazê-la aqui?

- O sol se pondo talvez seja o indicio de que está um pouco tarde, não acha?

Martin pensara imediatamente no muelle da cidade, que não fazia ideia do que fosse quando ouviu essa palavra pela primeira vez. Sabia apenas que os uruguaios pronunciam o "ll" como "x". Há sempre alguns barcos e jovens que se reúnem aí para ver a despedida do sol mais bonita do mundo, disseram-lhe. Não pagou para ver, porque mesmo que se considere o céptico dos mais cépticos, o acesso é livre. Sentou-se no piso de madeira, que deixava brechas entre uma peça e outra, mortais para uma mulher de salto alto. Mas quem estaria ali com um sapato assim? O fato é que se minha carteira cair aqui estou perdido, imaginou. Esperou pelo fim da jornada de trabalho da esfera amarela. A cidade para para assistir à despedida, é um evento que não se cancela. Vai se despedindo rapidamente, dependendo do ponto de vista. Os barcos mais próximos da doca desaparecem, depois a própria doca e, por fim, a bola de fogo, a esta altura nada mais que faísca.É realmente lindo, dessas coisas que eu deveria fazer com Cora algum dia, pensou.

- Falando nisso, você já foi ao Muelle no fim da tarde?

- Você já me levou lá. Anda esquecido?

- Muda esse olhar de adeus, Cora. Veja aquele velhinho que sentado ali na esquina, com aparência de 80 anos. Deve ter passado pelo portão da cidade, tomado um sorvete caseiro ali perto e caminhado pela praça gigante do bairro histórico até chegar ao seu martírio final. Sequer tem a companhia de um cachorro, já que esse animal vive a brigar por território nessa cidade. Das duas, uma: pode ter esperado demais ou optado por viver na amargura. Sobreviver, na verdade, porque o viver não tem significado dessa forma.

- Você trabalha muito com o condicional. Não penso assim, certamente vai chegar alguém.

O caminho de volta os levou até o farol da cidade. Ainda havia muitos turistas na fila. Paga-se 20 pesos uruguaios para subir até o topo, num caminho apertado de degraus verdes. Por vezes, é necessário curvar o corpo. A vista lá do alto é compensadora. Eucaliptos margeiam o ponto turístico, e as casinhas da cidade ficam ainda mais horizontais e pequenas nas ruas de paralelepípedo do bairro, que é a própria história. As colonizações espanhola e portuguesa convivem harmonicamente, pelo menos nos dias atuais e vindouros, assim esperamos. Quanto mais os visitantes sobem e maiores forem os obstáculos, maiores também a expectativa e a recompensa. A vida, pois.

Tudo já estava preto, e naquela época do ano, no inverno, as estrelas não costumam dar as caras.

- Eu já estou indo amanhã. Você quer viajar comigo de novo? – perguntou Martin.

- Para amar plenamente é necessário ter boa digestão. E eu nunca tive gastrite, você bem sabe – respondeu, de pronto, Cora. Pelo menos foi assim que ele imaginou se ela estivesse fisicamente ali.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Señor Alberto

Eu nunca tenho em mãos a chave para abrir a portaria do prédio aqui em Montevidéu. Quem me salva está lá dentro, sentado em uma cadeira dura e cercado por um balcão preto. Talvez fosse o caso de comprar uma poltrona por causa do conforto. Eu poderia sugerir isso na reunião do condomínio, desde que eu soubesse dos eventuais encontros entre os vizinhos e desde que eu não fosse um viajante de estadia curta.

Onomatopeia de portão se abrindo. Quem mais uma vez me salva já se levantou e está com as palmas das mãos abertas e braços esticados em direção ao elevador, que já está a minha espera no térreo. Sorrio para a cena inusitada e recebo uma breve gargalhada rouca. “Bueno, como andas??”, diz o senhor Alberto, 77 anos, 14 dos quais dedicados ao apartamento de 15 anos de idade na rua Benito Blanco. Sua voz pode ser escutada de longe, até mesmo do segundo andar.

Ele tem, confesso, essa mania de me apontar os caminhos. Quando estamos sem assunto e aguardo o elevador pisar no “T”, pergunta se estou estudando. Respondo afirmativamente e ele faz uso magistral da réplica: “Hay que estudiar! Es la llave para todo”. Sorrio, nos despedimos e subo.

Um dia desses eu descia e lá estava señor Alberto dentro do elevador. Era seu aniversário e levava uma garrafa de vinho no encontro do braço com o sovaco. Parabenizei-o e recebi um aperto de mão e abraço sinceros. Ele tem um apreço natural pelos brasileiros e, é bom frisar, nutre uma certa antipatia pelos argentinos. Como larga às 22h, tem tempo para acompanhar as produções brasileira na tv. “Novela brasileira! Está muy buena”, diz com tons de entusiasmo quando me vê chegar à noite.

Invariavelmente, Señor Alberto puxa conversa sobre como está frio, feio ou bonito o tempo lá fora. Não gosta de falar muito sobre o Danúbio, seu time do coração, talvez porque não saiba que gosto muito de futebol. Costuma vestir calça longa, sapato social e um suéter com vários losangos desenhados mesmo nos dias em que Montevidéu vira o Saara.
Señor Alberto é um pouco reaça, nada que o impeça de ser uma grande pessoa. Gosta da Dilma porque ela “bota a polícia para ir atrás dos traficantes nas favelas”. E eu poderia muito bem dizer: “Bueno, hay que estudiar...”.

Um desses dias comentava que volto a Maceió em dezembro, mas que tenho vontade de voltar, especialmente para conhecer o carnaval. “Mas você vai ficar aqui no apartamento?”, pergunta. “Não, não, mas voltarei para cumprimenta-lo”.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Em seu nome

As ondas do Rio de la Plata sobem e descem
Devagar, rapidamente, devagar
Arriscam um som próprio
Alto, baixo, alto
Como as nossas conversas 

Me acordo com os alarmes dos carros
Que todos os dias insistem em tocar
Levanto, visto algo, penso alto, saio
Você alguma vez também pensa?

Ando em círculos todas as noites
Voltando ao ponto em que você nunca irá
Quando está senta perto
E traz consigo muitas dúvidas